Mar 30, 2010
Pensar na essência da tecnologia é pensar na experiência do usuário.
Em uma conferência intitulada “Serenidade” proferida no ano de 1955, Martin Heidegger (filósofo alemão do início do século XX) descreve um pensamento da ordem do cálculo — pensamento calculativo — e um pensamento da ordem da reflexão — pensamento meditativo — como possíveis posturas existenciais adotadas pelo homem moderno.
“Todos nós, inclusive aqueles que pensam como que por dever profissional, todos nós somos muito freqüentemente pobres em pensamento; todos nós, com demasiada facilidade, somos sem pensamento (…) A ausência de pensamento é um estranho convidado que se insinua hoje por toda a parte no mundo. Pois lidamos atualmente com tudo do modo mais rápido e econômico, apenas para esquecê-lo instantaneamente no momento seguinte” (HEIDEGGER, Martin. Serenidade).
A preocupação de Heidegger com o modo como o homem se torna cada vez mais dependente da técnica, é proveniente dessa “ausência de pensamento”. A escassez de reflexões mais profundas parecem fortalecer essa hegemonia tecnológica e objetiva.
Esta dependência pode ser explicada pelo fato de possuirmos em nossa essência uma natural capacidade para pensar, e esta nos possibilita automaticamente a capacidade de “não-pensar”. É somente porque a luz se acende que ela pode se apagar. É somente porque pensamos que podemos não pensar (ou pensar de maneira superficial, pobre e objetiva).
A esse pensamento “empobrecido” é que Heidegger vai chamar de pensamento calculativo: um pensamento que visa somente a resolução de problemas objetivos. Heidegger não deixa no entanto de enfatizar o caráter imprescindível da presença do pensamento calculativo em nosso cotidiano.
“Tal pensamento permanece imprescindível. Mas também permanece o fato de que esse é um pensamento de tipo singular. Sua singularidade consiste em que sempre que planejamos, pesquisamos e organizamos, sempre contamos com condições que são dadas. Levamo-nas em conta com a intenção calculada de servirem a objetivos específicos. Assim podemos contar com resultados definidos. Esse cálculo é a marca de todo pensamento que planeja e investiga. Tal pensamento permanece cálculo mesmo quando não trabalha com números, nem usa máquina de calcular ou computador. O pensamento calculativo calcula” (HEIDEGGER, Martin. Serenidade).
O pensamento calculativo ocupa-se dos comos ao invés de investigar os porquês – fundamento do exercício filosófico. Sendo o pensamento calculativo um pensamento da ordem da objetividade e, por conseguinte, limitado a determinadas condições de ordem prática, não seria exagero supor que trata-se de um pensamento mais acessível – e certamente mais solicitado – numa sociedade que enxerga o mundo (e a natureza) como fundo de reserva.
Não se trata de negar a tecnologia, obviamente, mas de repensar a nossa relação com ela.
A carência de pensamentos é um hóspede inquietante que se insinua por todo o lado no mundo de hoje. Atualmente tudo se aprende da maneira mais rápida e mais económica e no momento a seguir tudo é rapidamente esquecido.
Para Heidegger,a falta crescente de pensamentos repousa no processo que ataca a substância mais íntima do homem contemporâneo: o homem contemporâneo foge diante do pensamento e isso explica a falta de pensamentos e mais, o homem contemporâneo não quer sequer reconhecer esta fuga, muito pelo contrário, ele afirma o oposto remetendo para tudo o que o conhecimento científico tem produzido.
O que é realmente inquietante não é o fato de o nosso mundo se tornar um mundo completamente tecnológico, mas sim que o homem não esteja preparado para essa transformação, que não se consiga explicar pelos meios do pensamento meditatitvo o que está acontecendo.
Pode parecer que Heidegger estivesse negando a técnica, mas este não era o caso. Ele deixou claro que dependemos dos objetos tecnológicos, a questão é que não podemos nos tornar seus escravos. Heidegger acreditava ser possível utilizarmos os objectos tecnológicos servindo-nos deles e, ao mesmo tempo, deles nos libertarmos. Podemos dizer “sim” à utilização da tecnologia, mas também “não” ao fato dela monopolizar, desunir e violar o nosso ser.
Mas o que esse homem que faz uso desses objetos tecnológicos deve fazer para que ele possa conviver com a tecnologia sem que ele perca as suas raízes?
A tecnologia, segundo Heidegger nada mais é do que uma herança que recebemos e que precisa ser conquistada a cada dia. Mas ao conquistá-la ela nos aprisiona e nos liberta. Aprisiona-nos quando nós simplesmente apropriamos daquilo que ela nos impõe por meio da cultura, dos costumes, dos valores, sem que possamos meditar. Libertar-nos quando nós nos colocamos a pensar a essência dela.
A tecnologia sempre nos desafia a estarmos em constante aperfeiçoamento.
Ela nos permite compreender que nós seres humanos nunca estamos prontos, feitos e acabados. Na medida em que o homem descobre novas tecnologias ele tem a oportunidade de se refazer, de se recriar junto com elas.
Mas para que o homem não perca suas raízes é necessário que ele saiba pensar a essência da tecnologia e pensar essa essência é superar a tecnologia, passar por dentro dela, compreendê-la mais radicalmente. Pensar a essência da tecnologia é pensar a essência de nós mesmos.
Pensar a essência da tecnologia é pensar a experiência, a experiência do usuário.
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