Apr 14, 2010
Simples + Belo = Correto (será?)
Na Idade Média, artistas e eruditos estavam convencidos de que o que era verdadeiro não podia ser feio. Antes disto esta idéia já era defendida por Platão, na Grécia antiga, que dizia que a beleza não é apenas aparência ilusória, mas deve servir aos bons propósitos.
Essa idéia vem do fato de que consideramos uma obra de arte ou uma peça musical especialmente bela quando é fácil apreciá-la. Os psicólogos denominam esse fenômeno “processing fluency”.
Isto explica muitas coisas! Essa fluência do processamento da percepção estática explica, por exemplo, por que especialistas em música conseguem apreciar obras bastante complicadas, enquanto o ouvinte mediano tem a tendência de se ater às composições populares ou da moda.
Seguindo essa linha de raciocínio, o gosto musical individual (e podemos aplicar ao gosto por design, arte, etc) surgiria pelas diferenças treinadas na fluência do processamento. Ou seja, podemos treinar a nossa percepção acerca do que é belo.
A teoria da fluência pode ser aplicada também à investigação dos motivos pelos quais a mente associa beleza à verdade.
Assim como peças musicais simples são mais apreciadas que as excessivamente complexas, enunciados de fácil processamento tendem a ser considerados mais complexos.
É aqui que assuntos relacionados ao design (arquitetura da informação, user experience, usabilidade, etc) começam a fazer sentido!
Em um experimento conduzido pelo pesquisador Rolf Reber (professor de psicologia biológica da universidade de bergen, Noruega) pediu-se que voluntários avaliassem a veracidade de algumas frases. Algumas estavam escritas com cores pálidas, difíceis de serem vistas diante do fundo branco da tela do computador; outras, em cores fortes, podiam ser reconhecidas sem nenhum esforço. Se as sentenças eram facilmente legíveis (processadas fluentemente) os participantes tendiam a concordar com elas — independentemente de serem corretas ou não!
A fluência aumenta a aparente veracidade, principalmente quando o processamento é inesperadamente fácil. Isso foi percebido quando os pesquisadores colocavam frases difíceis de serem lidas antes de frases bastante legíveis. Esta facilidade inesperada de leitura fazia com que as frases legíveis parecessem ainda mais verdadeiras.
Gosto pela organização
Estudantes universitários deviam avaliar contas (como as da imagem abaixo), para deduzir se a adição esteva correta. Eles tinham menos de dois segundos para realizar esta tarefa, o que tornava portanto impossível calcular realmente o que viam. Resultado: contas com pontos simetricamente organizados (quadro da imagem) eram com mais frequência consideradas corretas, mesmo quando estavam erradas.

Os participantes deste experimento se deixavam “cegar” pela elegância. Aparentemente eles julgavam a facilidade de percepção e a harmonia de uma imagem simétrica como indício de que a relação matemática estava correta.
Mas como a fluência de processamento, a beleza e a verdade se vinculam? Será que aquilo que é mais facilmente percebido não apenas parece sempre mais bonito, mas também mais correto? Ou será que as soluções que podem ser processadas com maior fluência podem simplesmente ser percebidas no início como harmônicas, desencadeando sentimentos positivos, que influenciam o julgamento de sua correção?
O matemático francês Henri Poincaré relatou que a impressão de beleza e elegância de uma equação matemática, por exemplo, surge quando tudo “combina muito bem”.
Essa sensação de coesão viria do fato de coisas semelhantes serem mais facilmente assimiladas em conjunto, pois conceitos estão armazenados na memória de longo prazo em cadeias.
Cada palavra que lemos, por exemplo, ativa inconscientemente conceitos associados a ela pelo seu conteúdo. Assim sinônimos são processados de maneira mais ágil.
É disto que a taxonomia trata e por isto a importãncia de uma análise deste tipo em uma estrutura de um site é tão importante.
Um exemplo da construção dessa cadeia: tendemos a concordar um pouco mais rápido com a frase “um sabiá é um pássaro” que com a frase “um sabiá é um animal”.
Isso acontece porque o conceito “sabiá” está armazenado em nossa memória de forma vinculada ao conceito “pássaro” e para constatar que as aves são animais a memória precisa de um passo a mais em seu trabalho mental.
A escolha de palavras, conceitos, imagens “corretas” podem teoricamente fazer com que sejam lidas com maior fluência porque todas as idéias estão relativamente próximas umas das outras na cadeia semântica.
Beleza e verdade tem, portanto, uma base comum: a fluência de processamento!
leia mais sobre o assunto aqui (em alemão)
Olá Marcos Nahr,
Muito bom esse artigo, realmente tem tudo a ver.
Parabéns
Cara sensacional, sempre procurei este tipo de material.
Espero que tenha mais conteúdo sobre isso aqui no site.
Parabéns…