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Educação, investimento contínuo

Educação, investimento contínuo

Jun 10, 2008

Entre­vista con­ce­dida à revista Web Design:

1 — Por que a edu­ca­ção deve ser um inves­ti­mento con­tí­nuo na car­reira de um pro­fis­si­o­nal?
Nin­guém sabe tudo, nem perto disto. E em um ambi­ente onde se tra­ba­lha com tec­no­lo­gias que mudam cons­tan­te­mente, estu­dar é fun­da­men­tal para o aper­fei­ço­a­mento. Outro aspecto que cos­tumo cha­mar a aten­ção das pes­soas em rela­ção a edu­ca­ção é a ques­tão do networ­king que se faz em qual­quer curso. Quando digo que a edu­ca­ção é fun­da­men­tal não estou falando ape­nas do aspecto peda­gó­gico, mas de todo o espec­tro envol­vido no processo.

Ima­gine ter de esco­lher o que você vai fazer pelos pró­xi­mos 40 anos quando você ainda tem 16, 17 anos.

2 — O que deve ser ava­li­ado na hora de se esco­lher uma car­reira e sua res­pec­tiva for­ma­ção pro­fis­si­o­nal? Como isso acon­te­ceu em sua tra­je­tó­ria pro­fis­si­o­nal?
Nor­mal­mente somos obri­ga­dos a fazer uma das esco­lhas mais impor­tan­tes da vida muito cedo. Ima­gine ter de esco­lher o que você vai fazer pelos pró­xi­mos 40 anos quando você ainda tem 16, 17 anos. É assus­ta­dor! É com­pli­cado achar uma fór­mula para se usar na hora de esco­lher uma car­reira. Às vezes somos influ­en­ci­a­dos por um amigo ou um parente, outras vezes pelo que lemos em rela­ção ao mer­cado de tra­ba­lho. Acho que o mais impor­tante, se tivesse de dar um con­se­lho, é fazer a esco­lha sem medo de errar. Mui­tas vezes é só ini­ci­ando o pro­cesso (edu­ca­ção ou está­gio) que vamos des­co­brir que aquilo não é para nós. Foi mais ou menos como acon­te­ceu comigo. Antes de me for­mar em design e des­co­brir minha car­reira, fiz outos 2 cur­sos: dois anos de Enge­nha­ria Civil e 3 anos de Arqui­te­tura e Urba­nismo. Não acho que tenham sido anos dis­per­di­ça­dos. O pro­fis­si­o­nal que sou hoje car­rega todos os conhe­ci­men­tos daque­les anos. O impor­tante, no meu caso, foi que a par­tir do momento em que des­co­bri real­mente o que que­ria ser/fazer, as coi­sas come­ça­ram a dar certo na minha car­reira, tudo pas­sou a acon­te­cer muito rapidamente.

3 — O ciclo de vida pro­fis­si­o­nal pode ser com­pa­rado à lógica do jogo Tetris, onde é pre­ciso encai­xar cada peça para a for­ma­ção de uma base sólida e con­sis­tente que resista às mudan­ças apre­sen­ta­das pelo mer­cado ao longo do tempo. Pen­sando nisso, quais são os cui­da­dos na hora de pro­gra­mar o momento e o tipo de curso a ser rea­li­zado?
Se você investe seu dinheiro em ape­nas um lugar corre o risco de per­der tudo se este inves­ti­mento não for bom. Para evi­tar isto uma boa ori­en­ta­ção é ter uma car­teira de inves­ti­men­tos vari­ada, um pouco em renda fixa, algo em ações e por aí vai. Em ter­mos de edu­ca­ção as coi­sas são pare­ci­das. É impor­tante fazer um curso espe­cí­fico de algum soft­ware, mas se este soft­ware dei­xar de ser usado o curso não vai mais valer muito. Então é inte­res­sante mes­clar sua “car­teira de inves­ti­mento edu­ca­ci­o­nal”, ter com cur­sos mais espe­cí­fi­cos emba­sa­dos por outros mais gene­ra­lis­tas, mais teóricos.

4 — Quais são os parâ­me­tros que devem ser con­si­de­ra­dos na esco­lha de um curso (con­teúdo, preço, meto­do­lo­gia, pro­fes­so­res etc.), seja ele de gra­du­a­ção, pós-graduação, à dis­tân­cia, téc­nico ou livre?
Exis­tem vários cri­té­rios, e deles depen­dem o obje­tivo que se quer com o curso. Se o obje­tivo é fazer um curso que vai valo­ri­zar o seu cur­ri­cu­lum, é inte­res­sado bus­car um local de mais renome, mais conhe­cido no mer­cado. Isto por si só não sig­ni­fica que você vai achar sem­pre pro­fes­so­res qua­li­fi­ca­dos nes­tas ins­ti­tui­ções, mas aí entra outro aspecto da edu­ca­ção, que é a par­ti­ci­pa­ção do aluno. Se o pro­fes­sor não for bom e você já pagou o curso, agora é tarde para desis­tir… Pro­cure sugar o máximo de conhe­ci­men­tos que con­se­guir para fazer valer a pena o valor que pagou. Pagar por um curso não sig­ni­fica apren­der, para se tirar pro­veito de um curso a gente pre­cisa de um pouco de suar da parte do aluno. Já se o obje­tivo é pura­mente cres­ci­mento pes­soal, pro­cure se infor­mar com quem já fez o curso para ver se vale a pena, não faça per­gun­tas do tipo: “foi legal?”, “tinha lan­che?” Ao invés disto tente per­ce­ber se a pes­soa que fez o curso cres­ceu em ter­mos de conhecimento/capacitação após ter feito o curso.

5 — Mui­tos espe­ci­a­lis­tas apon­tam que, por melhor que seja a ins­ti­tui­ção de edu­ca­ção, é o aluno que vai defi­nir o nível de conhe­ci­mento adqui­rido ao longo de seu apren­di­zado. Qual deve ser a pos­tura ado­tada ao ini­ciar um pro­cesso de edu­ca­ção visando a evo­lu­ção da car­reira pro­fis­si­o­nal?
Volto a refor­çar aqui que o aluno é quem define o quanto vai apren­der ou não. O pro­fes­sor está ali por­que sabe muito, mas mui­tas vezes não sabe pas­sar este conhe­ci­mento ao aluno. Como quem está pagando é o aluno, deve par­tir dele — prin­ci­pal­mente — a von­tade de apren­der. Não se con­tente com pouco, com a média. Tente tirar cada cen­tí­me­tro cúbico de conhe­ci­mento que você con­se­guir da cabeça do seu pro­fes­sor. Outro aspecto em rela­ção ao apren­di­zado diz res­peito ao modo como o conhe­ci­mento é gerado. Se o que foi apren­dido não for posto em prá­tica (a pedido do pro­fes­sor ou por von­tade pró­pria do aluno) ele acaba se per­dendo e nunca vai virar conhe­ci­mento. Pro­cure por em prá­tica tudo que aprende, mesmo que seja para che­gar a con­clu­são de que não fun­ci­ona, mas o pró­prio fato de ter che­gado a esta con­clu­são já demons­tra o seu nível de cres­ci­mento intelectual.

6 — Na edi­ção de feve­reiro de 2008, apre­sen­ta­mos um relato atu­a­li­zado sobre o per­fil do pro­fis­si­o­nal de inter­net. Os espe­ci­a­lis­tas con­sul­ta­dos apon­ta­ram a valo­ri­za­ção dos pro­fis­si­o­nais espe­ci­a­lis­tas em deter­mi­na­das áreas de conhe­ci­mento. Assim, de que maneira os cur­sos livres podem aju­dar no com­ple­mento da for­ma­ção de um pro­fis­si­o­nal?
Exis­tem conhe­ci­men­tos que não mudam (muito) com o pas­sar dos anos — psi­co­lo­gia, semió­tica, ges­talt — e outros que mudam cons­tan­te­mente — soft­ware, lin­gua­gens de pro­gra­ma­ção, tec­no­lo­gias. Exis­tem dois tipos de espe­ci­a­lis­tas. Um tipo que é espe­ci­a­lista em software/linguagens/tecnologia e o outro que é espe­ci­a­lista em tudo isto e tem conhe­ci­men­tos das teo­rias por trás de tudo. Quem você acha que vai se adap­tar mais rapi­da­mente caso alguma mudança tec­no­ló­gica acon­teça? Conheço ainda hoje espe­ci­a­lis­tas em softwa­res e tec­no­lo­gias quem nin­guém mais usa. Um bom emba­sa­mento teó­rico sem­pre ajuda a uma adap­ta­ção mais rápida às mudanças.

7 — No artigo “Vá estu­dar, menino!”, Luli Rad­fah­rer, pro­fes­sor da USP, faz uma abor­da­gem crí­tica sobre a for­ma­ção do pro­fis­si­o­nal de inter­net, res­sal­tando que “…nes­ses tem­pos de comu­ni­ca­ção cola­bo­ra­tiva, as opor­tu­ni­da­des de apren­di­zado estão por toda parte, em diver­sos for­ma­tos. Você é desig­ner? Pois se pre­o­cupe em apren­der um pouco mais sobre His­tó­ria da Arte, His­tó­ria do Design, Tipo­gra­fia, Foto­gra­fia, Teo­ria das Cores. Se você é pro­gra­ma­dor, aprenda um pouco mais sobre Pla­ne­ja­mento de Pro­ces­sos, Ciên­cia da Infor­ma­ção, Teo­rias de Lin­gua­gem, Epis­te­mo­lo­gia e Apren­di­zado. É isso, e não uma nova manha de Flash ou um script dife­rente que fará de você um pro­fis­si­o­nal res­pei­tado. É sem­pre bom lem­brar que téc­nica é só téc­nica…”. Diante disso, você acre­dita que ainda exista espaço para o pro­fis­si­o­nal focado ape­nas no apren­di­zado auto­di­data?
A pala­vra chave aqui é “comu­ni­ca­ção cola­bo­ra­tiva”. Acre­dito no tra­ba­lho cola­bo­ra­tivo e neste aspecto sem­pre tere­mos equi­pes com pro­fis­si­o­nais auto­di­da­tas. Acho que existe espaço para todos. O auto­di­data deve apro­vei­tar o con­ví­vio com pes­soas que já inves­ti­ram mais em uma edu­ca­ção for­mal para absor­ver e agre­gar os conhe­ci­men­tos delas em seus tra­ba­lhos enquanto aquele com uma for­ma­ção for­mal pode e deve apren­der a botar em prá­tica suas idéias de maneira mais pro­fis­si­o­nal com a ajuda das téc­ni­cas do autodidata.

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One comment

  1. Nelson /

    Gos­tei do texto.
    Gos­ta­ria ape­nas de fazer uma con­si­de­ra­ção quanto aos tipos de infor­ma­ção ade­qua­dos a cada tipo de pro­fis­si­o­nal, do Luli Rad­fah­rer. Quando ele cita pro­gra­ma­dor, diz que deve apren­der mais sobre epis­te­mo­lo­gia, porém este é um con­ceito bem amplo, que diz res­peito á teo­ria do conhe­ci­mento, e pode se encai­xar em pra­ti­ca­mente todas as pro­fis­sões. Veja­mos o que diz o dici­o­ná­rio Auré­lio:
    epis­te­mo­lo­gia
    [Do gr. epis­téme, ‘ciên­cia’; ‘conhe­ci­mento’, + –o– + –logia.]
    Subs­tan­tivo femi­nino.
    1.Conjunto de conhe­ci­men­tos que têm por objeto o conhe­ci­mento cien­tí­fico, visando a expli­car os seus con­di­ci­o­na­men­tos (sejam eles téc­ni­cos, his­tó­ri­cos, ou soci­ais, sejam lógi­cos, mate­má­ti­cos, ou lingüís­ti­cos), sis­te­ma­ti­zar as suas rela­ções, escla­re­cer os seus vín­cu­los, e ava­liar os seus resul­ta­dos e apli­ca­ções. [Cf. teo­ria do conhe­ci­mento e meto­do­lo­gia (2).]
    Só isso, abraço,
    Nel­son Smythe Jr.
    desig­ner grá­fico (UFPR)
    mes­trando em design (UFPR)

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